Há protótipos que parecem pedir, aos berros, uma placa e a chance de ganhar as ruas - e o Alfa Romeo Diva é um desses casos.
Com o lendário 3.2 V6 Busso montado em posição central traseira e um visual que reverencia o 33 Stradale - “apenas” um dos carros mais bonitos de todos os tempos -, o Diva reunia tudo o que a gente esperava de um supercarro da Alfa Romeo.
Mesmo tendo sido mostrado lá em 2006, sigo achando que esse supercarro merecia, sim, ter chegado à produção.
E agora, com a apresentação do novo supercarro da Alfa Romeo batendo à porta (estreia marcada para 30 de agosto), também inspirado no incontornável 33 Stradale, este parece o momento perfeito para revisitar o Diva.
Por muito tempo, o Diva ficou praticamente apagado dentro da marca italiana e só voltou a receber a atenção devida bem mais tarde, em 2020: passou a integrar a exposição do museu da Alfa Romeo, em Arese.
Um desfecho para uma história que dava um filme. Ou dois.
Um projeto mal recebido dentro da Alfa Romeo
Muita coisa já foi dita e escrita sobre o Alfa Romeo Diva, mas por um bom tempo se soube pouco sobre os bastidores - até Juan Manuel Díaz, o designer que fez os retoques finais no protótipo antes de sua revelação, falar abertamente sobre o assunto.
Em 2020, em entrevista ao jornal argentino Infobae, Juan Manuel Díaz afirmou que o Diva é um dos projetos de que mais se lembra, “pelo bizarro que foi o processo de construção do carro”.
“É um carro que esteve proibido”, disse Díaz, segundo o Infobae, lembrando que todo o desenvolvimento ocorreu em sigilo, justamente por medo de o projeto ser vetado. Desde o início, tudo foi cercado de desconfiança dentro da Alfa Romeo - a ponto de a marca praticamente ignorar o carro até perto do limite, inclusive durante a própria apresentação.
Por isso, em 2006, quando apareceu pela primeira vez para o público no Salão do Automóvel de Genebra, o Diva não teve as “honras” de ficar no estande da Alfa Romeo: acabou deslocado para o espaço da Sbarro no evento suíço. Ainda assim, foi impossível passar despercebido.
Afinal era um verdadeiro «Alfa» ou uma criação da Sbarro?
Juan Manuel Díaz - que também assinou o interior do belíssimo Alfa Romeo 8C Competizione - confirma que, apesar de não ter sido desejado e de “o departamento de marketing não querer que fosse construído”, o Diva é, e sempre foi, um Alfa Romeo.
Díaz explicou que o desenho original do Diva foi feito pelo italiano Filippo Pierini, que no meio do projeto saiu para a Lamborghini e não conseguiu finalizá-lo.
Foi então que Díaz - ao lado do polonês Zbigniew Maurer (hoje designer sênior no Centro Stile Alfa Romeo) - entrou na história, depois de ser chamado para ir à Suíça, a um ateliê da Sbarro perto de Yverdon, onde o carro começou a tomar forma e acabou sendo concluído.
O designer argentino e Maurer receberam a tarefa complicada de fechar o Diva. Entre a saída de Pierini e a falta de dinheiro na Alfa Romeo - Díaz relata que “não havia dinheiro para construí-lo”, antes de lembrar que, no período em que esteve na marca italiana, “sempre tivemos que raspar o fundo da panela como loucos para conseguir levar adiante um desenvolvimento” -, o protótipo ficou um ano esquecido e abandonado. Era novembro de 2005.
“O carro tinha muitas linhas e me pediram para deixá-lo mais suave. E com esse objetivo pusemos mãos à obra”, contou Díaz.
Ele continuou, dizendo ao jornal argentino que o prazo era mínimo: “Era tudo muito estranho. Trabalhamos com gesso. Passamos quatro dias modificando uma lateral, a traseira estava incompleta e o teto teve que ser refeito porque tinha uma janela com um corte distinto. Começamos na segunda-feira e tínhamos até quinta-feira ao meio-dia para concluí-lo”.
Não tinha a qualidade que se esperava
O projeto esteve sob supervisão de Wolfgang Egger, que na época era diretor de design da Alfa Romeo (atualmente é designer-chefe do BYD Group). Mesmo assim, o trabalho não chegou ao fim com a qualidade e o nível de detalhe esperados para um modelo de um fabricante de automóveis.
Talvez por isso o Diva tenha sido apresentado ao mundo no Salão de Genebra, em março de 2016, dentro do estande da Sbarro - e não no da Alfa Romeo -, no meio de protótipos criados por estudantes da École Espera Sbarro.
“Foi apresentado com uma qualidade bastante baixa, sem estar de acordo com uma fábrica de automóveis, mas essa foi a forma que tivemos de trabalhar nele, em segredo. E foi exposto no stand da Sbarro porque não permitiram fazê-lo no da Alfa. Não tinha sequer o interior acabado e por isso esteve sempre fechado”, relatou Díaz, lembrando que “mesmo assim foi um sucesso em Genebra”.
A redenção em Villa D’Este
Com o fim do evento suíço, a trajetória do Diva não parou ali. O protótipo foi enviado às oficinas da Carrozzeria Touring, em Milão, onde foi reconstruído com o nível de qualidade que merecia, já pensando em sua segunda aparição pública.
E não havia palco mais nobre: o prestigiado Concorso D’Eleganza Villa D’Este, que acontece todos os anos às margens do Lago Como.
Depois disso, ele passou para a responsabilidade da Elasis, um centro de engenharia e pesquisa da Fiat no sul da Itália, funcionando como uma espécie de laboratório sobre rodas. Foi lá, por exemplo, que a família de motores FIRE foi desenvolvida e testada,
Para tristeza de muita gente, o Diva nunca entrou em produção. Mas basta olhar para ele para perceber como pode ter influenciado o 4C, revelado alguns anos depois, em 2013, no Salão de Genebra.
As proporções ficaram mais ou menos as mesmas (cerca de 3,9 m de comprimento para apenas 1,2 m de altura), assim como a receita de motor central traseiro, tração traseira e somente dois lugares.
Só que, no lugar do 3.2 V6 Busso “esticado” até 290 cv (“emprestado” de um 147 GTA) que equipava o Diva, a Alfa Romeo decidiu colocar no 4C um conjunto bem menor: quatro cilindros em linha, turbo, com 1,75 l de cilindrada e 240 cv.
Finalmente no lugar que merece
O reconhecimento do Diva por parte da Alfa Romeo só viria muito depois, em 2020, quando a marca decidiu levá-lo para seu museu em Arese.
E o Diva volta ao centro das atenções justamente quando falta pouco para conhecermos o novo supercarro da Alfa Romeo:
Ainda não sabemos tudo sobre o supercarro que a Alfa Romeo vai apresentar, mas ele inevitavelmente terá que encarar o Diva como parte da família.
Mesmo tendo sido “um filho não reconhecido” por 14 anos, como Juan Manuel Díaz o define, ele traduz com perfeição o que todo mundo espera que seja um “super Alfa”.
Fonte: Infobae
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