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Mercedes-Benz 190 (W 201): o recorde de 50 000 km em 201 horas

Carro esportivo Mercedes-Benz prata exibido em showroom com luzes ligadas e pintura brilhante.

O Mercedes-Benz 190 (W 201) foi um divisor de águas e garantiu, por mérito próprio, um espaço especial na história do automóvel. Eu poderia atribuir isso à durabilidade, ao desenho ou ao pacote de inovações, mas o Guilherme Costa resumiu de um jeito muito mais certeiro:

"Gosto de pensar que ele é o resultado de um cruzamento muito bem sucedido entre um sofá de sala vulgar, um carro, um tanque de guerra e um relógio suíço."

Deixando a brincadeira de lado, o Mercedes-Benz 190 funcionava como uma espécie de canivete suíço (desculpem a segunda referência à Suíça): serviu como carro de família, virou táxi e ainda chegou às pistas. Ayrton Senna, inclusive, chamou atenção ao vencer uma corrida ao volante de um 190.

Quando a gente começa a passar pela lista - longa - de qualidades desse modelo, inevitavelmente a conversa volta para dois pontos: robustez e confiabilidade.

E não é pouca coisa. Mesmo sendo, na época, o Mercedes-Benz mais barato da linha, ele não abriu mão do padrão de qualidade típico do fabricante alemão. Ao mesmo tempo, também se destacava em tecnologia: por exemplo, foi o primeiro carro da marca a adotar suspensão multilink no eixo traseiro.

Para demonstrar, na prática, a resistência do então controverso “baby-Benz”, a Mercedes-Benz decidiu mirar alto: bater o recorde mundial do carro mais rápido a percorrer 50 000 km .

Convenhamos: recorde sempre cai bem em qualquer campanha de marketing.

50 000 km em 201 horas

Para derrubar a marca, parte da equipe técnica da Mercedes-Benz foi até o anel de Nardo, na Itália, perto da província de Lecce (hoje, a área pertence à Porsche). Era agosto de 1983… com temperaturas que chegaram aos 40º C.

Como dá para imaginar, não foram os 190 D “de rua” os escolhidos para a missão.

A aposta recaiu sobre aquele que seria o futuro topo de linha, o 190 E 2.3-16 - futuro porque ele só seria mostrado ao público algumas semanas depois, no Salão do Automóvel de Frankfurt, na Alemanha.

Em 21 de agosto, o Mercedes-Benz 190 E 2.3-16 cravou o recorde absoluto dos 50 000 km: foram necessários 201 horas, 39 minutos e 43 segundos (oito dias e mais um pouco), o que representa uma média de 247,939 km/h.

Notaram as 201 horas? Fica difícil acreditar que tenha sido “apenas” coincidência o total de horas bater com o código da geração W 201. Eu prefiro enxergar isso como precisão alemã em estado puro - pelo menos é o que quero acreditar.

Como se construiu este recorde?

No circuito de Nardo, a marca de Stuttgart apareceu com uma “armada” de três carros e voltou para casa não com um, mas com três recordes mundiais (25 000 km, 25 000 milhas e 50 000 km), além de nove recordes internacionais na classe acima de dois litros.

Um dos 190, identificado por uma marca vermelha (dá para ver de perfil e nos faróis dianteiros), foi preparado para se apresentar ao público como o novo recordista mundial. Já outro 190, marcado em branco, também completou os 50 000 km - só que com 1 km/h a menos de média.

O terceiro 190, com marca verde, era justamente o que estava mais próximo da configuração final de produção - indicamos mais abaixo as modificações efetuadas nestes 190 - e foi o único a enfrentar um problema. A pouco mais de 1000 km do fim, ele precisou parar por algum tempo devido a falhas na ignição, o que derrubou a média final para “apenas” 242 km/h.

Paragens máximas de cinco minutos

Além dos reabastecimentos, que levavam entre 18s a 28s, os três carros faziam paradas de cinco minutos a cada 8500 km. Nelas, trocavam-se os pneus traseiros e o filtro de óleo, e também era feita a verificação das válvulas.

Ainda assim, para que os recordes fossem reconhecidos, havia uma exigência: qualquer pane só poderia ser reparada usando o material existente dentro do próprio carro. Em contrapartida, a carga transportada não poderia ultrapassar em mais de 5% o peso total.

Por isso, cada exemplar levava no banco traseiro um cabeçote completo, um alternador, um disco de embreagem e dois vidros de farol, além dos equipamentos técnicos usados para registrar todos os dados dessa “aventura”.

Mercedes-Benz 190 e uma velocidade média de quase 250 km/h

Os três carros levados ao circuito italiano de Nardo para encarar esse desafio exigente não estavam 100% “de fábrica”. Algumas alterações eram permitidas sem comprometer a validade do recorde mundial - mas intervenções no motor, não.

O conjunto mecânico desses Mercedes-Benz 190 E 2.3-16, um 2,3 l aspirado, de quatro cilindros e 16 válvulas, com 185 cv e 235 Nm, era exatamente o mesmo do modelo que seria lançado semanas depois.

Esse motor chamava atenção pelo cabeçote com quatro válvulas por cilindro - uma solução incomum na época - desenvolvido pela Cosworth (com inspiração no DFV da Fórmula 1).

A força ia para as rodas traseiras por meio de um câmbio manual Getrag de cinco marchas, que deixava o 190 E 2.3-16 chegar a 230 km/h… Espera… 230 km/h!? A média do recorde foi de praticamente 248 km/h. De onde vieram esses quilômetros por hora extras?

Como eu disse antes, algumas mudanças eram permitidas. O motor não podia ser mexido (seguia com os 185 cv originais), mas os engenheiros de Stuttgart conseguiram aumentar a velocidade final trocando a relação do diferencial por outra mais longa (2,65:1).

Somado a isso, também houve ajustes aerodinâmicos: o spoiler dianteiro foi estendido em 20 mm e a altura livre do solo baixou 15 mm. O radiador ainda ficou sem ventoinha (dispensável nas velocidades utilizadas) e podia ser parcialmente vedado pelo motorista a partir do interior.

O resultado foi um “salto” da velocidade máxima de 230 km/h para 265 km/h… com apenas 185 cv!

Consumos de 22 l/100 km

Um dos motivos que levou a Mercedes-Benz a adotar a solução de 16 válvulas, evitando o uso de turbocompressor, foi o consumo.

Quem dizia isso era o Professor Breitschwerdt, responsável por estudos e desenvolvimento de projetos da Daimler-Benz, ao afirmar: “com um turbo o consumo seria mais elevado”, como consta no comunicado de imprensa da época.

Vale lembrar que a Mercedes-Benz declarava consumo entre 7 l/100 km a 90 km/h e 12,5 l/100 km no ciclo urbano para o 190 E 2.3-16. Durante este recorde, o consumo médio final foi bem maior: 22 l/100 km.

O número parece enorme, mas quando se coloca na conta que foram 50 000 km a uma média de quase 250 km/h, dá para perceber que, na prática, foi um consumo bastante interessante.

Três recordes mundiais e uma «arma» contra a BMW

Além de emplacar três recordes mundiais e nove internacionais, essa “aventura” em Nardo serviu para a marca alemã eliminar quaisquer dúvidas que ainda pudesse ter sobre o Mercedes-Benz 190 E 2.3-16.

A Mercedes-Benz entendeu que ali estava sua melhor “arma” para enfrentar a hegemonia da BMW nesse segmento, com a Série 3.

Para fechar, em tom de homenagem, fica a desculpa perfeita para trazer de volta o “nosso” 190. Vejam o vídeo:


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