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Entrevista com Wayne Griffiths: CUPRA, SEAT e o novo Tavascan em Martorell

Carro elétrico cupra tavascan verde em exposição moderna com tela holográfica ao fundo.

Em Martorell, na Espanha - base da SEAT e da CUPRA - conversamos com Wayne Griffiths, CEO das duas marcas, no mesmo encontro em que vimos, em primeira mão, o novo Tavascan.

Trata-se do primeiro SUV 100% elétrico da CUPRA. A fabricação começa ainda este ano, mas as primeiras entregas só acontecem em 2024. É mais um avanço no caminho para a eletrificação total prevista para 2030.

Na entrevista a seguir com Wayne Griffiths, falamos sobre a trajetória (ainda recente) de sucesso da CUPRA e o que está planejado para a marca. Mas também colocamos a questão inevitável: e a SEAT - o que vem pela frente para a marca espanhola?

Martorell, Tavascan e a trajetória da CUPRA

Razão Automóvel (RA): Estamos em crises sucessivas, mas a CUPRA parece estar a passar ao lado com vendas a crescer continuamente. E razões para otimismo com planos ambiciosos para os próximos anos…

Wayne Griffiths (WG): As crises acabaram abrindo espaço para a gente acelerar mudanças. Em 2022, vendemos mais de 150 mil carros e, no primeiro trimestre de 2023, voltamos a aumentar nossos emplacamentos em mais 50%.

E, claro, com o lançamento mais ou menos iminente de dois SUVs - o Tavascan e o Terramar - a perspectiva é excelente para uma marca que não tem passado, mas está fazendo de tudo para construir um grande futuro.

Com um ano completo de vendas desses dois modelos, podemos chegar rapidamente a meio milhão de unidades por ano. Em 2022, comercializamos 100 mil Formentor; o Born deve ter um aumento relevante na demanda no curto prazo; e, depois, em 2025, vamos lançar o compacto elétrico (ndr: a versão de produção do UrbanRebel).

RA: A que atribui o sucesso rápido da CUPRA?

WG: Uma parte importante desse resultado inicial veio do fato de termos contado com uma rede de distribuição muito ampla e eficiente. Isso foi decisivo.

Além disso, conseguimos chamar a atenção de um público mais jovem (a idade média do cliente CUPRA é de 42 anos, 10 anos a menos do que na SEAT) e também atrair pela diferenciação.

Falamos de consumidores que queriam viver algo fora do padrão - e isso funcionou com um cliente que, por natureza, não é fiel. A gente sabe disso e sabe que existe um grande desafio pela frente: reter esse cliente e também os próximos, que tendem a ser mais facilmente conquistados por marcas novas e disruptivas.

Cliente CUPRA e a estratégia de eletrificação até 2030

RA: Além de ser 10 anos mais novo, quem é o vosso cliente em comparação com a SEAT?

WG: Além de buscar novidade e ter menor idade, sabemos que metade dos nossos clientes vêm de marcas que não fazem parte do universo do Grupo Volkswagen.

E que 70% não teriam comprado um carro do Grupo Volkswagen se não tivessem escolhido um CUPRA. Ou seja, estamos “roubando” clientes da concorrência - mais um indicador muito positivo para nós.

RA: A SEAT S.A. está a liderar o projeto dos compactos elétricos do Grupo Volkswagen. Que significado tem para a SEAT/CUPRA ter uma missão desta envergadura?

WG: É algo enorme e um motivo claro de orgulho. Foi necessário convencer a casa-mãe (a Volkswagen) e também o governo espanhol, mas conseguimos - e agora é colocar a mão na massa.

Entre as fábricas de Martorell e de Pamplona, vamos produzir modelos para Volkswagen, CUPRA e Skoda. O UrbanRebel será o mais provocativo dos três, mais alto, porém mais esportivo do que os outros dois.

RA: Que posicionamento de mercado terá o vosso carro elétrico compacto?

WG: Hoje, a meta é ter um preço de entrada de linha entre os 27 mil euros e os 30 mil euros.

RA: Falou de um veículo feito para as marcas CUPRA, Volkswagen e Skoda. Mas não SEAT. Já não vão haver mais SEAT novos e a marca vai desaparecer tal como a conhecemos há mais de 70 anos?

WG: No futuro, a CUPRA será a nossa marca de automóveis. Vamos seguir fabricando SEAT com motores a combustão pelo menos até 2035, mas, cada vez mais, a marca vai se concentrar em produtos de mobilidade alternativa.

E é possível, inclusive, que existam SEAT 100% elétricos - mas serão veículos diferentes, e não os automóveis atuais, a partir dos quais fazemos uma versão elétrica.

Precisamos ousar, ter coragem. Assim como já fizemos ao anunciar que a CUPRA será 100% elétrica já em 2030, ou seja, daqui a sete anos. O Terramar será o último CUPRA que ainda vai usar motor a combustão interna.

RA: É um momento que lhe causa alguma apreensão?

WG: Não; pelo contrário. Acredito que foi bem mais difícil ter feito o Formentor dar certo em um mercado dominado por carros a combustão do que será na indústria de carros elétricos, porque, agora, todos partimos de um nível muito mais equilibrado.

Vai ser uma guerra, até porque precisamos reduzir substancialmente os custos para oferecer elétricos por preços que o cliente consiga pagar (basta ver que, nos mercados em que os incentivos foram eliminados ou reduzidos, as vendas de elétricos e híbridos plug-in caíram muito). Ainda assim, será igualmente estimulante.

RA: Que opinião tem sobre a exceção dada aos combustíveis sintéticos que irão permitir automóveis novos a combustão após 2035?

WG: O nosso foco está nos carros 100% elétricos. O custo dos combustíveis sintéticos (e-fuels) será bastante alto e eles terão pouca relevância, a não ser para marcas de luxo e de superesportivos.

De qualquer forma, se em 2035 esse cenário mudar - isto é, se os e-fuels se tornarem competitivos em preço para o cliente - eles podem ser úteis por permitirem que os motores a combustão da frota em circulação continuem sendo usados, já que não precisam receber nenhuma alteração técnica.

Tavascan: produção, China e planos de mercado

RA: O Tavascan de produção em série conserva as linhas desportivas do concept. Foi difícil consegui-lo?

WG: O protótipo foi apresentado no Salão de Frankfurt em 2019 e, desde que começamos a desenvolver a versão final, houve um esforço para manter essas linhas o máximo possível.

Acredito que esse nosso segundo modelo totalmente elétrico será um sucesso de vendas assim que chegar ao mercado.

O desenho é nosso; a engenharia foi desenvolvida pelos nossos técnicos a partir da plataforma MEB. Mas, por uma questão de lógica industrial, ele será produzido na China (aliás, será um dos primeiros carros do Grupo Volkswagen a ser fabricado na China, em Anhui, e exportado para a Europa).

RA: E vai ser vendido na China também?

WG: Não, será apenas para exportação. A Volkswagen tem uma presença muito forte, construída ao longo de décadas de investimentos no maior mercado do mundo, e não vamos entrar por esse caminho. Da mesma forma, não temos planos de entrar na Índia nem na América Latina.

Já nos Estados Unidos da América a realidade é diferente e vale uma análise. A Volkswagen tem baixa participação de mercado nos EUA, e existem alguns estados onde a demanda por carros elétricos é alta.

Se conseguirmos comprovar que isso é suficiente para montar um plano de negócios lucrativo, podemos, sim, nos arriscar.

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