Cartas de amor ao retrô viraram lugar-comum no mercado de jogos. Há de tudo: desde projetos que se encostam demais no material de origem até aqueles que pegam a ideia central de um clássico e a levam para direções que ninguém imaginava. Nesse cenário de nostalgia constante, a Yacht Club Games foi uma das primeiras a se destacar com o enorme sucesso de Shovel Knight, que recuperou a fórmula do ação-plataforma 2D e ainda assim conseguiu surpreender com variações divertidas, mantendo a base e o visual muito fiéis ao estilo de 8 bits com o qual muita gente cresceu. À primeira vista, o próximo título do estúdio, Mina the Hollower, parece seguir a mesma linha de homenagem direta a The Legend of Zelda: Link's Awakening - mas, na minha sessão de cerca de uma hora, ficou claro que ele vai bem além de uma nostalgia preguiçosa.
Visual de Game Boy Color e a homenagem a Link's Awakening
Com gráficos que remetem ao Game Boy Color, é inevitável que Mina the Hollower seja comparado a jogos como Link's Awakening - e isso é intencional. A equipa por trás do projeto demonstra um carinho evidente por aquela fase da indústria e não faz questão de esconder as referências.
No começo, o combate também passa uma sensação familiar: depois de escolher a sua arma - um par de adagas ágeis, um chicote ao estilo Castlevania ou um martelo pesado - você parte para uma aventura com visão superior, repleta de monstros perigosos, quebra-cabeças espertos e cenários de meter medo.
A escavação de Mina the Hollower: “enterrar” como mecânica central
A Mina consegue saltar, tal como o Link em Link's Awakening, mas carrega uma ação fundamental que a separa da maioria dos protagonistas de jogos de ação vistos de cima. No verdadeiro espírito da Yacht Club, a Mina escava. Só que não é apenas cavar: ela se enterra.
Como uma Hollower, a Mina pode afundar instantaneamente no chão e deslocar-se por baixo da terra durante algum tempo. Isso serve para várias situações - desde escapar de inimigos quase como um rolamento de esquiva até atravessar por baixo de obstáculos baixos. E tem mais: se você se enterrar rapidamente na direção de um vão, dá até para ganhar impulso e “voar” um pouco à frente, aumentando a distância do salto.
Essa mecânica de se enterrar é divertida para se locomover, mas não é só um truque extra. Ela é indispensável para avançar de verdade na aventura. Felizmente, o comando é natural de aprender, e os desenvolvedores montaram uma série de soluções de design inteligentes ao redor disso, fazendo com que a ideia tenha peso real no jogo, e não pareça apenas mais uma habilidade no conjunto.
Progressão e itens: ecos de Bloodborne no meio do retrô
Depois de passar pela linhagem visual óbvia e pelos pilares básicos da jogabilidade, comecei a achar que Mina the Hollower talvez tenha mais em comum com Bloodborne do que com Link's Awakening. Além da arma escolhida, você carrega frascos de cura para usar quando quiser (embora a estratégia conte - já chego lá) e encontra vários Berloques colecionáveis que fortalecem a personagem.
Esses Berloques vão de aumentos de defesa ou de poder de ataque até um que solta uma aranha capaz de construir uma teia por cima de um buraco que, de outra forma, seria impossível atravessar. Os meus preferidos foram um que permite ficar enterrada por mais tempo, combinado com outro que faz a Mina atacar ao emergir do chão. No início do jogo, há dois espaços para Berloques, mas existirão formas de ampliar esse limite.
Conforme você recolhe ossos, também evolui (ou, como aparece no jogo, dá “Bone Up”), o que permite melhorar os atributos da Mina. E dá até para decidir o equilíbrio entre quantos ossos você guarda como moeda e quantos converte em experiência. Testar essas possibilidades será essencial não só para encontrar o seu estilo de jogo, mas também para descobrir qual abordagem funciona melhor em cada área.
Bone Beach, armas secundárias e o ritmo das curas
Depois de atravessar uma zona introdutória, fui levado a Bone Beach, uma área de meio de jogo bem mais exigente do que a região de tutorial onde comecei. Um monstro gigantesco foi parar na praia, atraindo mineiros de ossos do mundo inteiro para aproveitar o que conseguissem do enorme cadáver. Como dá para imaginar, isso também trouxe uma série de criaturas e figuras nada confiáveis.
Após alternar entre o chicote Nightstar e o martelo Blaststrike Maul, concluí que as adagas Whisper e Vesper eram a minha escolha. Com elas, posso atacar no corpo a corpo como se fosse uma espada comum, mas também dá para arremessar uma das lâminas no inimigo para causar dano - desde que eu me lembre de ir recuperá-la depois. Assim, vou abrindo caminho por vários tipos de oponentes: mineiros que atiram picaretas, crânios flutuantes que soltam nuvens de veneno e aves assustadoras que mergulham para atacar.
Ainda bem que Mina the Hollower recompensa quem sai do caminho principal, oferecendo ganhos como ossos, Berloques e armas secundárias. O meu item secundário favorito acabou sendo o machado de projéteis, mas também encontrei um portal que você pode colocar no chão para se teletransportar até ele e uma faca de arremesso. Só dá para carregar um por vez, e cada opção tem munição, então é preciso pensar bem em como e quando usá-las.
Já que o assunto é usar com cuidado, os frascos de cura ajudam bastante - mas são limitados. Em vez de restaurar a vida inteira sempre que você bebe um, ele só repõe a parte amarela da barra de vida, que é conquistada ao causar dano nos inimigos. Ou seja: para extrair o máximo de cada frasco, o ideal é jogar de forma agressiva para encher essa porção amarela e, só então, consumir a cura para aproveitar melhor o recurso.
Quando você chega a um ponto de controlo, dá para restaurar não apenas a vida, mas também reabastecer os frascos. Com o tempo, isso vai ajudando a entender o ritmo mais eficiente para administrar as curas.
Mesmo eu tendo menos apego ao visual no estilo Game Boy do que muita gente da minha idade, adorei o tempo que passei com Mina the Hollower. O conjunto de mecânicas inspiradas em várias fontes junta-se de um jeito que parece novo, mesmo quando o jogo se comporta como algo que poderia ter saído de mais de três décadas atrás. A Yacht Club Games construiu a sua reputação com o excelente Shovel Knight, mas não me surpreenderia se Mina the Hollower viesse a ocupar, no futuro, um espaço de destaque ao lado do primeiro personagem icónico do estúdio. Infelizmente, sem data ou janela de lançamento anunciada, ainda pode demorar até eu conseguir jogar novamente - mas, quando a oportunidade aparecer, vou aproveitar sem pensar duas vezes.
Para saber mais sobre Mina the Hollower, veja aqui o nosso documentário sobre o desenvolvimento do jogo. Para conhecer mais dos melhores jogos da PAX West 2023, acesse aqui.
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